segunda-feira, 21 de maio de 2012
LIÇÕES
Já comentei, em postagem anterior, sobre Zé Alfredo, o motorista com quem frequentemente partilho viagens pela prefeitura para fazer atendimentos em locais remotos e visitas domiciliares a pessoas que, graças ao estado de saúde, não têm condições de comparecer à unidade de saúde para uma consulta. Ele é pastor evangélico e tem uma fé realmente admirável.
Em nossa última viagem comentávamos sobre algumas situações que vivemos quando algumas pessoas arrogantes nos agridem. Contei-lhe de uma pessoa que se queixava com justiça a Divaldo Franco de outra que lhe era demasiado agressiva e crítica, e o famoso médium respondeu apenas com uma palavra: Misericórdia. Embora evangélico, Zé Alfredo corroborou feliz a resposta de Divaldo. Contou de sua admiração por Gandhi, que sem violência conseguiu mais do que tantos outros que pegaram em armas. Ele também é admirador de Francisco de Assis, pela sua doçura, fé e entrega.
No correr da viagem contei-lhe que estava sumamente preocupado com uma pasta de documentos muito importantes que havia perdido. Então o meu amigo me convidou a orar junto com ele para Deus me ajudar a encontrar a pasta. Contou-me o seguinte:
Um homem vendo aproximar-se a morte chamou os três filhos, pois queria despedir-se e dar-lhes um último conselho. Mandou que fossem ao campo e colhessem varas, o que fizeram. Depois pediu ao mais velho que quebrasse uma das varas o que este o fez com facilidade, quebrando também duas varas. Então o moribundo solicitou que tentasse quebrar todas as varas ao mesmo tempo. A despeito do fato de que as varas eram bem finas, ele não conseguiu fazê-lo. Foi então que o velho lhes disse que sozinhos cada um deles não tinha força e poderia ser quebrado com facilidade por qualquer ameaça. Conclamou-os a que se mantivessem unidos, pois dessa maneira resistiriam a tudo. E neste momento Zé Alfredo me pediu que nós uníssemos a minha fé (que confesso não ser das maiores) com a dele, para pedir. E foi o que fizemos. Ele recitou uma bela oração onde pedia que se alguém tivesse encontrado a pasta que Deus lhe tocasse o coração para logo me devolver e que se eu apenas não tivesse visto a mesma, que se me abrissem os olhos para encontra-la. Depois disso, felizes seguimos o nosso trabalho.
Cheguei em casa um pouco mais relaxado e fiz as coisas de praxe. Quanto a noite já estava amadurecendo e eu pensava em desligar o noticiário televisivo para dormir, o telefone tocou. Era Marilza, a técnica de enfermagem aqui do Capão, uma pessoa maravilhosa e dedicada. Estava com um casal cujo filho mais velho padecia de forte febre. Queria que visse a criança. Eles estavam com carro e poderiam vir a minha casa. Aquiesci e fui me preparar para a consulta fora de hora. Nos últimos dias isso tem acontecido com intensa frequência, o que me levou a um certo cansaço. Mas aqueles pais e aquela criança não poderiam deixar de ser atendidos com o cuidado que mereciam. Então na minha mesa de trabalho fui à estante das pastas e qual não foi minha surpresa quando encontrei a pasta perdida. Mas eu já havia buscado muitas vezes naquele lugar! Quase sem acreditar olhei a pasta e verifiquei seu conteúdo. Era sim a pasta perdida. Como pude não vê-la?!
Naquele momento fui tomado por uma sensação de que este Mistério que sinto ao redor e dentro de todas as coisas, me fez uma lição povoada de profundo humor. Nos últimos dias com frequência tenho sido confrontado com a necessidade de confiar (em Deus, na Providência, no Mistério, na Vida – não importa o nome que coloquemos). Este momento, fruto da experiência com Zé Alfredo foi uma culminância da qual estou tirando várias lições.
Uma dessas lições diz respeito à crítica. No posto temos uma espírita (entre outras) que está estudando história e chocada com as perseguições católicas contra os dissidentes. Em dado momento manifestou que está odiando a igreja católica (apenas força de expressão - espero), enquanto isso, uma outra que é Evangélica lhe comentou que ela fala tanto de religião e cristianismo sem nunca haver lido a Bíblia. Ambas são ótimas amigas e uma deseja que a outra siga o caminho mais correto de salvação. Pensei em Zé Alfredo e sua história e notei que seria de bom alvitre que a humanidade parasse de se preocupar com a melhor forma de amar a Deus e se dedicasse a unir todas as varas religiosas em um só feixe, afinal Deus é maior do que todas as religiões reunidas.
Seria, outrossim, muito interessante e positivo se para fortalecer nossa fé, ou nossa autoestima, ou nosso senso de pertencimento a um grupo, se nós não precisássemos criticar os demais. Sim, muitas vezes nos fortalecemos, não por nossos méritos e sim por fixar-se nos deméritos dos demais. Aqui comentei a questão religiosa, mas no cotidiano inúmeras vezes criticamos o diferente, o (supostamente) menos competente, e assim nos sentimos mais fortes em nossa verdade, ou em nosso grupo. Tal postura fundamenta e fortalece a intolerância. Embora nos deixe momentaneamente com um sentimento de força, nos obrigará a recorrer repetidas vezes ao método, qual vício que carece de novas doses e sempre maiores.
Aprender com os erros dos outros é recomendável, porém mais vale estar atento ao próprio orgulho, pois a vaidade inconsciente é uma forma de loucura embutida, que em seu devido tempo cobrará sua taxa. Grato a Zé Alfredo por me convidar a unir minha fé com a sua para um fim benéfico.
Recebam um abraço de fé de Aureo Augusto.
PS: clique em [EXPOSIÇÃO] logo aqui ao lado em cima para assistir à exposição virtual de pinturas que tem como tema os clientes da Unidade de Saúde onde trabalho.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
EXPOSIÇÃO VIRTUAL
Caros amigos e amigas,
Como sabem faço parte de uma UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA, aqui no Vale do Capão. A equipe é muito legal, todos gostam de trabalhar, e sempre promovemos atividades para que a população esteja mais próxima da unidade e consequentemente dos temas relacionados à saúde. Recentemente fizemos uma atividade em homenagem à mulher, com palestra sobre saúde e muitas apresentações dos inúmeros artistas do Vale, além de farta distribuição de prêmios a elas, prêmios estes doados pela comunidade. As Agentes Comunitárias de Saúde organizaram a atividade que já faz parte de nosso calendário.
Agora estamos promovendo a Exposição NOSSA GENTE NA USF. Trata-se da 3ª edição. As anteriores eram exposições de fotografia. Desta feita fiz pinturas a partir das fotos. Não são obras ambiciosas, mas que querem retratar nossa gente tal como ela é. No final do evento que durará um mês, os retratados receberão seus retratos como um presente da nossa equipe.
Além disso resolvemos fazer uma exposição virtual, com a ajuda de meu sobrinho Thiago Caribé, um destes alucinados da computação, aqui no blog e você está convidado a conhecer, ou relembrar, algumas das pessoas do Vale do Capão.
Basta clicar em [Exposição] aqui nesta página, logo abaixo de minha foto. Então vai abrir uma página com algumas explicações. Clique em [Exposição] no canto superior direito da página e vai abrir uma nova página onde os quadros irão desfilar um a um, com textos sobre os representados. Caso queira demorar-se mais em algum quadro basta corre o mouse pela parte inferior onde aparecerão as fotos em miniatura e à esquerda um símbolo de pause; clicando nele para a sequência de mostras. Uma vez que você leu, clique novamente no mesmo lugar e recomeça a exposição.
Agradecemos o apoio irrestrito de nossa gente às nossas atividades e no momento, especialmente ao LAC-SAÚDE, laboratório de Seabra, na pessoa do Dr. Sérgio Carneiro, que nunca nos falha no apoio, a Maria Betânia (Corretora Betânia), empreendedora do Capão, que também nos apoiou no presente evento, bem como a Bete e Medinho (Mercadinho Flamboyant) sempre prontos a contribuir com todos os eventos que beneficiam a NOSSA GENTE.
Bom passeio pela mostra virtual. Aureo Augusto.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
NOJO DO FOGO
Vejo o bonito do depoimento das pessoas... inda mais nestes dias de seca forte quando até as quaresmeiras que tanto amo e que nesta época emolduram em magenta e violeta esta terra, até agora mal apareceram. De verdade, as quaresmeiras atrasaram. Hoje notei que timidamente algumas apareceram e tomo isso como sinal de que pode que o nosso povo sertanejo receba chuva em breve. Mas vejamos o depoimento:
Hoje estava consultando um senhor já de alguma idade, mas não tanto a ponto de eu pedir a benção. É um sujeito que gosta bem de conversar e contar histórias, suas opiniões e aventuras. Pudesse eu a consulta não acabava mais, mas tinha o povo lá fora e com o mesmo direito. Inda assim deu pra escutar uma coisa que me agradou.
Ele contou que quando era jovem tinha grande prazer em tocar fogo no mato e sempre que surgia a oportunidade não deixava por menos e se divertia vendo a beleza das labaredas, do fogo subindo no mundo espalhando luz e rebrilhando a noite. Gostava por demais, como disse.
Vai que um dia, estando descendo do lado de uma cachoeira viu o mato ressecado e pensou que dali poderia sair belas labaredas. Interessante que sempre tocava fogo e se afastava, vendo de longe, se afastando, porém desta feita o lugar não o permitia e o fazer foi mais inconsequente do que de outras oportunidades já que não tinha pra onde fugir. Quase morre. O fogo fez o cerco, caçou ele que correu a refugiar-se no rio, salvando-se, mas tão perto ficou da quentura que pôde ver o estrago junto assim a ponto de sentir a dor. A dor que ele sentiu foi de ver como ele mesmo falou, maria preta e pistolinha, mocó, aranha e beija-flor... viu os animais morrendo, os ninhos pegando fogo. Viu passarinho morrer desesperado tentando fazer alguma coisa impossível para salvar os filhotes do incêndio.
Nunca mais tocou fogo no mato, e, além disso, entrou a sentir raiva de quem bota fogo.
Gostei de ouvir. E além disso segue o exemplo do pai na área em que garimpava. Quando cava um lugar para buscar o cascalho a ser lavado, ele tira o cascalho e depois pega a terra que estava por cima e espalha novamente pelo lugar. Dess’arte o local em que garimpa, o mesmo onde labutou na lavra seu avô e seu pai, é um dos mais lindos desta região. Garantiu que me leva lá e disse que vou concordar com ele. Vou mesmo, um dia destes.
Recebam um abraço feliz de Aureo Augusto
quarta-feira, 18 de abril de 2012
COISAS PRA PENSAR NO POSTO
Acontecem muitas coisas que me fazem pensar aqui no posto de saúde. Todos os dias me vejo meditando sobre os acontecimentos – claro que tem dias nos quais não dá pra nem pensar pois o movimento é muito intenso.
Hoje um casal veio à consulta. Ambos estrangeiros de países diferentes. Ela da região centro oriental e ele do sul da Europa. O rapaz muito delicado e cuidadoso em suas maneiras, mas ela um tanto grossa. O irônico do processo é que quando a Agente Comunitária de Saúde (ACS) chegou à casa que eles ocupam aqui no Capão para cadastra-los, ela se recusou. Ocorre que este posto faz parte da Estratégia de Saúde da Família do SUS e todos os moradores sob nossa responsabilidade são cadastrados para que possamos organizar o atendimento e prestar contas ao sistema quanto às estatísticas tão necessárias para a boa administração da saúde pública. Mas ela não quis acordo; recusou-se. Não adiantou a ACS explicar a necessidade. Porém, como todos sabem, a vida dá muitas voltas e o mundo sempre retorna ao mesmo lugar em uma situação parecida, mas em um ponto superior da espiral do tempo. Ocorre que o casal e filhos ficaram doentes e a coisa ficou séria. Então procuraram o posto. Ele muito tranquilo porque sempre havia nos tratado de forma agradável, mas ela, com aquele olhar de bicho acuado...
Ao procurarem Wanessa para solicitar atendimento esta notou que não eram cadastrados. Teve compaixão dos dois porque era a terceira vez que apareciam aqui, mas o excesso de gente nos últimos dias não permitiu nem que tivessem a possibilidade de atendimento. Explicou-lhes a questão e a necessidade do cadastramento, mas ela não demonstrou satisfação com esta coisa, enquanto ele se dispôs de imediato a cadastrar no caso de ser possível. Por acaso a ACS responsável pela área em que moram estava no posto. Wanessa foi atrás dela e explicou a situação. A agente, apesar do tratamento recebido, fez o cadastro e pude atendê-los. No final de tudo, depois das consultas a mulher estava com o rosto mais relaxado e até agradeceu no final.
Bem há pouco tempo, outros estrangeiros que vieram morar aqui no Vale passaram pelo mesmo vexame. Recusaram-se a cadastrar, mas a doença obrigou-os a se retratar. Nesta oportunidade foram bem desagradáveis com a ACS. De outra feita foi um brasileiro do sul que vindo morar aqui, disse à ACS que jamais iria ao posto. Veio. E teve que procurar a ACS para o cadastramento.
Esta gente é inimiga de qualquer coisa que represente a sociedade burguesa contemporânea, mas noto que não são tão inimigos dos confortos da sociedade burguesa contemporânea. Usam a internet, têm laptops e fazem questão de servir-se do serviço público que é mantido pelos impostos que se recusam a pagar, em uma expressão bem interessante de uma fala que ouvi (uma paródia ao Pai-Nosso) segundo a qual tem muita gente que só quer venha a nós, mas a vosso reino nada.
Às vezes desejamos uma vida sem regras. Completa liberdade... Mas é possível a completa liberdade? Precisamos em dado momento comer, dormir, satisfazer, enfim, nossas necessidades essenciais. Dependemos da natureza física para viver e ela carece de esforço para nutrição, higiene, atividade etc. Aí, justo aí, esbarra a liberdade; ou melhor, esbarra-se o conceito (falso) de liberdade. Quando pensamos que ser livre é fazer o que queremos sem atentar para as consequências, temos uma ideia errônea de liberdade, pois esta depende de nossa responsabilidade. Apenas aqueles que conseguem responsabilizar-se por si e pelos próprios atos pode ser livre.
Dentro das amarras que representa o ato de existir, liberdade é assumir-se como prisioneiro do Universo onde existimos. A não existência garante infinitas possibilidades, mas toda esta infinidade colapsa quando passamos a ser um algo e não todo o infinito que não acontece.
Assumimos muitas ideias ideais, mas devemos ter cuidado para não desmerecer a quem não comunga com nossos ideais e, além disso, perceber que pode ser que a realidade não corresponda ao ideal que escolhemos. Pode ser que precisemos justamente daquele que desprezamos.
Recebam um abraço nada desprezível de Aureo Augusto.
Hoje um casal veio à consulta. Ambos estrangeiros de países diferentes. Ela da região centro oriental e ele do sul da Europa. O rapaz muito delicado e cuidadoso em suas maneiras, mas ela um tanto grossa. O irônico do processo é que quando a Agente Comunitária de Saúde (ACS) chegou à casa que eles ocupam aqui no Capão para cadastra-los, ela se recusou. Ocorre que este posto faz parte da Estratégia de Saúde da Família do SUS e todos os moradores sob nossa responsabilidade são cadastrados para que possamos organizar o atendimento e prestar contas ao sistema quanto às estatísticas tão necessárias para a boa administração da saúde pública. Mas ela não quis acordo; recusou-se. Não adiantou a ACS explicar a necessidade. Porém, como todos sabem, a vida dá muitas voltas e o mundo sempre retorna ao mesmo lugar em uma situação parecida, mas em um ponto superior da espiral do tempo. Ocorre que o casal e filhos ficaram doentes e a coisa ficou séria. Então procuraram o posto. Ele muito tranquilo porque sempre havia nos tratado de forma agradável, mas ela, com aquele olhar de bicho acuado...
Ao procurarem Wanessa para solicitar atendimento esta notou que não eram cadastrados. Teve compaixão dos dois porque era a terceira vez que apareciam aqui, mas o excesso de gente nos últimos dias não permitiu nem que tivessem a possibilidade de atendimento. Explicou-lhes a questão e a necessidade do cadastramento, mas ela não demonstrou satisfação com esta coisa, enquanto ele se dispôs de imediato a cadastrar no caso de ser possível. Por acaso a ACS responsável pela área em que moram estava no posto. Wanessa foi atrás dela e explicou a situação. A agente, apesar do tratamento recebido, fez o cadastro e pude atendê-los. No final de tudo, depois das consultas a mulher estava com o rosto mais relaxado e até agradeceu no final.
Bem há pouco tempo, outros estrangeiros que vieram morar aqui no Vale passaram pelo mesmo vexame. Recusaram-se a cadastrar, mas a doença obrigou-os a se retratar. Nesta oportunidade foram bem desagradáveis com a ACS. De outra feita foi um brasileiro do sul que vindo morar aqui, disse à ACS que jamais iria ao posto. Veio. E teve que procurar a ACS para o cadastramento.
Esta gente é inimiga de qualquer coisa que represente a sociedade burguesa contemporânea, mas noto que não são tão inimigos dos confortos da sociedade burguesa contemporânea. Usam a internet, têm laptops e fazem questão de servir-se do serviço público que é mantido pelos impostos que se recusam a pagar, em uma expressão bem interessante de uma fala que ouvi (uma paródia ao Pai-Nosso) segundo a qual tem muita gente que só quer venha a nós, mas a vosso reino nada.
Às vezes desejamos uma vida sem regras. Completa liberdade... Mas é possível a completa liberdade? Precisamos em dado momento comer, dormir, satisfazer, enfim, nossas necessidades essenciais. Dependemos da natureza física para viver e ela carece de esforço para nutrição, higiene, atividade etc. Aí, justo aí, esbarra a liberdade; ou melhor, esbarra-se o conceito (falso) de liberdade. Quando pensamos que ser livre é fazer o que queremos sem atentar para as consequências, temos uma ideia errônea de liberdade, pois esta depende de nossa responsabilidade. Apenas aqueles que conseguem responsabilizar-se por si e pelos próprios atos pode ser livre.
Dentro das amarras que representa o ato de existir, liberdade é assumir-se como prisioneiro do Universo onde existimos. A não existência garante infinitas possibilidades, mas toda esta infinidade colapsa quando passamos a ser um algo e não todo o infinito que não acontece.
Assumimos muitas ideias ideais, mas devemos ter cuidado para não desmerecer a quem não comunga com nossos ideais e, além disso, perceber que pode ser que a realidade não corresponda ao ideal que escolhemos. Pode ser que precisemos justamente daquele que desprezamos.
Recebam um abraço nada desprezível de Aureo Augusto.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
COISAS DE MIM E DAQUI
Tenho o sono pesado. Saí a minha mãe, que nunca acordava nos barulhos das noites, ao contrário de meu pai, de sono leve toda a vida. Uma vez Cybele estava em São Paulo e precisou de minha ajuda. Daí telefonou, mas não acordei. Depois de várias tentativas ela chamou Dinha, uma vizinha querida e pediu que o marido dela fosse me acordar. Na manhã seguinte vim a saber que o pobre homem bateu na porta até quase derruba-la sem sucesso. Agora, na noite da quinta-feira santa, às 3 da manhã, um amigo trouxe a filha que estava com uma crise. Já tentara telefonar sem sucesso, me chamou, buzinou o carro, e teve que retornar à casa, pois não acordei. Pela manhã, quando retornaram me procurando, censurei-o por não me haver chamado à noite, já que a moça sofria tanto. Foi então que soube da aventura dele na noite anterior. Aí mostrei a janela do meu quarto e disse: “Você deveria ter chamado aqui”. Respondeu-me que ficou um tempo naquela janela fazendo um barulhão. E quando brincam comigo por causa do meu sono pesado, digo que é por causa da consciência limpa (rsrsrs).
Pois é, se é hora de dormir, posso fazê-lo mesmo que tenha uma banda de rock fazendo um show por perto. Algumas vezes sou obrigado a sair para solicitar a alguns vizinhos barulhentos depois das 10 horas que façam silêncio, mas o faço não porque me sinta incomodado com o barulho em si; incomoda a falta de percepção de alguns visitantes de que as demais pessoas têm que trabalhar no dia seguinte e precisam dormir. Há um grupo de jovens turistas que me impressionam. Usam roupas bem alternativas e os cabelos rasta; no discurso falam em uma vida sem as peias do capitalismo, com maior atenção à natureza, mas, estranhamente, não conseguem ficar em silêncio. Fazem um baticum danado dia e noite (até o momento em que os vizinhos se queixam). Como eles, muitos veem ao Vale buscando um lugar tranquilo, mas labutam arduamente para acabar com a paz local. O silêncio nos obriga a olhar (e ouvir) a nós mesmos e isso nem sempre é suportável.
Quem disse que a chuva apareceu no Vale do Capão? Desde que aqui vivo, há quase 30 anos, nunca aconteceu de não ter chuva forte na Semana Santa. Esta foi a primeira vez. Todos estão muito impressionados com isso.
Seguramente vocês leram sobre a morte dos jovens daqui no Carnaval. Infelizmente os motoqueiros seguem na correria. Teve um que, bêbado, caiu duas vezes no mesmo momento e a última das quedas levou a moto para dentro do rio. Quanto ao motorista, teve que ser hospitalizado.
Mesmo com a seca, e com um certo número de pessoas que me levaram a interromper o descanso para atende-las nas urgências (o pessoal não para pra olhar a paisagem – olha enquanto caminha sobre as pedras, e o resultado é quedas, cortes, escoriações), curti com amigos as comidas deliciosas dos restaurantes daqui e as deliciosas águas do Vale do Capão. Até, junto com dois adolescentes, consegui esticar uma corda de uma árvore a outra sobre o rio, na trilha para Lençóis, e tentei caminhar na corda bamba. Pelo menos tinha água embaixo, pois o máximo que consegui caminhar foi zero passo. Ainda tenho que treinar muito...
Mas o principal é que quero continuar treinando – a viver – coisa que comecei a quase 60 anos atrás e não pretendo parar tão cedo, com chuva ou com sol.
Recebam um abraço esperançoso de Aureo Augusto.
Pois é, se é hora de dormir, posso fazê-lo mesmo que tenha uma banda de rock fazendo um show por perto. Algumas vezes sou obrigado a sair para solicitar a alguns vizinhos barulhentos depois das 10 horas que façam silêncio, mas o faço não porque me sinta incomodado com o barulho em si; incomoda a falta de percepção de alguns visitantes de que as demais pessoas têm que trabalhar no dia seguinte e precisam dormir. Há um grupo de jovens turistas que me impressionam. Usam roupas bem alternativas e os cabelos rasta; no discurso falam em uma vida sem as peias do capitalismo, com maior atenção à natureza, mas, estranhamente, não conseguem ficar em silêncio. Fazem um baticum danado dia e noite (até o momento em que os vizinhos se queixam). Como eles, muitos veem ao Vale buscando um lugar tranquilo, mas labutam arduamente para acabar com a paz local. O silêncio nos obriga a olhar (e ouvir) a nós mesmos e isso nem sempre é suportável.
Quem disse que a chuva apareceu no Vale do Capão? Desde que aqui vivo, há quase 30 anos, nunca aconteceu de não ter chuva forte na Semana Santa. Esta foi a primeira vez. Todos estão muito impressionados com isso.
Seguramente vocês leram sobre a morte dos jovens daqui no Carnaval. Infelizmente os motoqueiros seguem na correria. Teve um que, bêbado, caiu duas vezes no mesmo momento e a última das quedas levou a moto para dentro do rio. Quanto ao motorista, teve que ser hospitalizado.
Mesmo com a seca, e com um certo número de pessoas que me levaram a interromper o descanso para atende-las nas urgências (o pessoal não para pra olhar a paisagem – olha enquanto caminha sobre as pedras, e o resultado é quedas, cortes, escoriações), curti com amigos as comidas deliciosas dos restaurantes daqui e as deliciosas águas do Vale do Capão. Até, junto com dois adolescentes, consegui esticar uma corda de uma árvore a outra sobre o rio, na trilha para Lençóis, e tentei caminhar na corda bamba. Pelo menos tinha água embaixo, pois o máximo que consegui caminhar foi zero passo. Ainda tenho que treinar muito...
Mas o principal é que quero continuar treinando – a viver – coisa que comecei a quase 60 anos atrás e não pretendo parar tão cedo, com chuva ou com sol.
Recebam um abraço esperançoso de Aureo Augusto.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
DIA DA MULHER no VALE
Ontem foi um dia feliz aqui no Vale. Não tanto pela chuva. Choveu gostoso em minha casa, durante toda a noite, mas foi rareando até chegar na rua como uma poeira de chuva. Já no Riacho do Ouro nem apareceu. A razão da felicidade foi que comemoramos o dia da mulher. Aqui na nossa USF (Unidade de Saúde da Família) temos vários projetos que são assumidos pelos componentes da equipe. Por exemplo: Renilde é responsável pelo Horto e produz e distribui plantes medicinais, eu me responsabilizo pelas Atividades Educativas doa Hipertensos e Diabéticos, Marilza e eu pelo trabalho com os idosos, e assim por diante. Não importa o cargo que a pessoa exerça na equipe, se responsabilizará por alguma tarefa. Sendo a responsável não necessariamente fará todo o trabalho. Na última atividade educativa com os hipertensos e diabéticos convidei o dentista (Raí) para fazer a palestra, pois o tema era repercussões dentárias nestas enfermidades e foi bem legal, registre-se.
A festa para as mulheres ficou a cargo das Agentes Comunitárias de Saúde (ACS - Marlene, Neide, Rozeli e Ni), que planejaram, programaram tudo. Pediram-me para criar os cartazes que foram impressos na unidade (contamos com uma impressora a laser, doada) e os convites distribuídos a cada mulher do Vale do Capão. Saíram de porta em porta solicitando apoio tanto de particulares quanto de comerciantes e a população respondeu em peso de modo que havia uma profusão de presentes que foram sorteados com as mulheres e todas, sem exceção, levaram um brinde lembrança lindíssimo. As mulheres da Conceição dos Gatos e do Rio Grande foram convidadas e uma Van foi lá busca-las graças ao apoio de Bete e Medinho do Supermercado Flamboyant. Fafá de Juju cuidou do som e Lili e Bibia da Quitanda do Vale ofereceram as frutas. Mas chega a ser injusto dar estes nomes, pois ninguém negou participação. E as ACS arrumaram o coreto lindamente, bem como a sala de palestras do posto, onde ficaram os comes e bebes que, como todas as festas por aqui, foram fartos. Encarregaram-me da palestra onde conclamei as mulheres a cuidar de si da mesma forma que se dedicam a filhos e maridos. E a enfermeira e coordenadora do posto, Natália, foi a apresentadora por indicação das ACS.
Além dos prêmios distribuídos aconteceram espetáculos musicais que me encantaram (e pelos aplausos agradaram a todos). O coral do Vale tanto as crianças quanto os adultos, o grupo Girassol, de mulheres que cantam as músicas tradicionais do Brasil, o Drama, tradição aqui no Capão, e, o grupo de forró da Conceição dos Gatos que garantiu a festa no final da programação. Teve também concurso de recitais de poemas e brincadeiras.
Além dos aspectos educativo e artístico do evento, tivemos uma oportunidade ímpar de confraternização e a USF-Vale do Capão foi beneficiada na medida em que isso implica em uma forte maneira de aproximar a comunidade (mais ainda) do posto. Contribui para esta intimidade que faz com que nossos clientes se sintam bem quando entram em nossas salas. Há felicidade na relação com as pessoas e o dia da mulher foi uma culminância. As Agentes Comunitárias de Saúde brilharam mais uma vez. Foi demais!!!
Recebam um abraço muito contente de Aureo Augusto, em 2/4/12.
A festa para as mulheres ficou a cargo das Agentes Comunitárias de Saúde (ACS - Marlene, Neide, Rozeli e Ni), que planejaram, programaram tudo. Pediram-me para criar os cartazes que foram impressos na unidade (contamos com uma impressora a laser, doada) e os convites distribuídos a cada mulher do Vale do Capão. Saíram de porta em porta solicitando apoio tanto de particulares quanto de comerciantes e a população respondeu em peso de modo que havia uma profusão de presentes que foram sorteados com as mulheres e todas, sem exceção, levaram um brinde lembrança lindíssimo. As mulheres da Conceição dos Gatos e do Rio Grande foram convidadas e uma Van foi lá busca-las graças ao apoio de Bete e Medinho do Supermercado Flamboyant. Fafá de Juju cuidou do som e Lili e Bibia da Quitanda do Vale ofereceram as frutas. Mas chega a ser injusto dar estes nomes, pois ninguém negou participação. E as ACS arrumaram o coreto lindamente, bem como a sala de palestras do posto, onde ficaram os comes e bebes que, como todas as festas por aqui, foram fartos. Encarregaram-me da palestra onde conclamei as mulheres a cuidar de si da mesma forma que se dedicam a filhos e maridos. E a enfermeira e coordenadora do posto, Natália, foi a apresentadora por indicação das ACS.
Além dos prêmios distribuídos aconteceram espetáculos musicais que me encantaram (e pelos aplausos agradaram a todos). O coral do Vale tanto as crianças quanto os adultos, o grupo Girassol, de mulheres que cantam as músicas tradicionais do Brasil, o Drama, tradição aqui no Capão, e, o grupo de forró da Conceição dos Gatos que garantiu a festa no final da programação. Teve também concurso de recitais de poemas e brincadeiras.
Além dos aspectos educativo e artístico do evento, tivemos uma oportunidade ímpar de confraternização e a USF-Vale do Capão foi beneficiada na medida em que isso implica em uma forte maneira de aproximar a comunidade (mais ainda) do posto. Contribui para esta intimidade que faz com que nossos clientes se sintam bem quando entram em nossas salas. Há felicidade na relação com as pessoas e o dia da mulher foi uma culminância. As Agentes Comunitárias de Saúde brilharam mais uma vez. Foi demais!!!
Recebam um abraço muito contente de Aureo Augusto, em 2/4/12.
quarta-feira, 28 de março de 2012
CADÊ A CHUVA?
Só se conversa do tempo. Ninguém escapa, muito menos eu. Até onde me vai a memória e a memória de outros tantos que por aqui vivem, nunca o tempo se ressecou como agora. Memória é coisa curta, pode até que lá pelos idos de 1930, quando os americanos amargavam a recessão, nós aqui experimentamos uma das maiores secas de que se tem notícia. Pode ser que naquele entonces a coisa tenha sido pior, não sei, não vivia pra saber. Sei que já tem um bom tempo sem chuva. Sei que em Seabra o rio da Pratinha, que nutre a cidade, cortou; em Andaraí a coisa está feia, do mesmo em Mucugê. Há duas noites de quando em vez despertei com gritos que começavam em um canto e respondiam em outro, também no meio da noite um clarão enorme entrou pela janela e frestas das telhas. Acordei e no lusco-fusco da consciência semi dormida, pensei que a luz do poste estava mais forte, refletia nos vidros e entrava pelo telhado como goteira. Escutei uns estalidos, sorri pensando gotas esparsas nas telhas e dormi. Só quando cheguei no trabalho que o pessoal me perguntou se eu ficara assustado com o incêndio na serra do Candombá, no fundo de minha casa, quase. Aí descobri o significado de clarões e estalidos. Saí a ver o rasgo escuro na serra verde. Ainda umas labaredas lambiam as pedras.
Foi incêndio feio, não escutei. Sono pesado. Só um detalhe das agonias que comentamos: poeira, nariz ardendo, ressecamento em tudo, chão encharcado de pó, tanto de deslizar as rodas dos carros e os pés embranquecerem no mergulho da poeira; crianças de chieira no peito, e adultos. Calor, suor seco, garganta ressentida, magoada, tosse, cansaço e canseira. Então, depois de muito arengar do clima todos levantam os olhos para o céu, esticam as vistas assuntando as nuvens se as há. Poucas, esparsas, fibras desconexas espalhando-se escassas. Às vezes gorgolejantes esperanças prendem-se a grossas armações aéreas no horizonte. Vãs. Esvaem-se ao calor que emana da terra verde (sim verde, porque não deixa a cor o Vale, agarra-se a ela).
Os olhos espicham-se no espaço do céu espaçoso e mais longe vão as lembranças e os pedidos. Esperamos. Agora nesse momento que escrevo o vento fresco bafeja a alma do mundo. Ou traz nuvens ou as afasta. Manhã veremos.
Recebam um abraço empoeirado, de Aureo Augusto.
Foi incêndio feio, não escutei. Sono pesado. Só um detalhe das agonias que comentamos: poeira, nariz ardendo, ressecamento em tudo, chão encharcado de pó, tanto de deslizar as rodas dos carros e os pés embranquecerem no mergulho da poeira; crianças de chieira no peito, e adultos. Calor, suor seco, garganta ressentida, magoada, tosse, cansaço e canseira. Então, depois de muito arengar do clima todos levantam os olhos para o céu, esticam as vistas assuntando as nuvens se as há. Poucas, esparsas, fibras desconexas espalhando-se escassas. Às vezes gorgolejantes esperanças prendem-se a grossas armações aéreas no horizonte. Vãs. Esvaem-se ao calor que emana da terra verde (sim verde, porque não deixa a cor o Vale, agarra-se a ela).
Os olhos espicham-se no espaço do céu espaçoso e mais longe vão as lembranças e os pedidos. Esperamos. Agora nesse momento que escrevo o vento fresco bafeja a alma do mundo. Ou traz nuvens ou as afasta. Manhã veremos.
Recebam um abraço empoeirado, de Aureo Augusto.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
PACTOS
Beli postou-se, com suas filhas, à porta de casa. Carregava uma garrafa pet cortada, à guisa de vaso, cheia de flores multicoloridas. Ficou ali por muito tempo. Esperou um bocado de tempo. Olhava para a ponta da rua enquanto conversava e manifestava suas preocupações e sua solidariedade à mãe de Alisson (que àquele momento se despedia pela última vez do filho em sua casa). Quando finalmente o enterro chegou, as lojas, os amercados, os restaurantes fecharam as portas como é de costume aqui no Vale do Capão. Beli pôde dispor suas flores para o jovem que não mais as veria.
Conforme o desejo do próprio Alisson, uma grande quantidade de motocicletas precedeu o cortejo – ele queria também cavalos, mas foram poucos. Vieram motociclistas de longe, pois ele era uma pessoa muito querida, tinha muitos amigos... Alisson e Rafael eram unidos até a medula, embora às vezes se desentendessem, com muito mais frequência estavam juntos nas bandalheiras que aprontavam, desde crianças. Quando Rafael, cansado de tantas confusões que armou por aqui, resolveu ir morar no Pati, Alisson foi com ele. Os dois fizeram um pacto (assim contam os amigos e o irmão) de morrer juntos e assim fizeram. Foi na noite de sexta para sábado, vésperas do carnaval. Rafael havia bebido e como sempre tentava arrumar confusão, desta feita com Dió, um rapaz que é muito tranquilo, que nunca – ao que me conste – teve briga com ninguém. Isso foi no bar/mercearia de Seu Joãozinho, pai de Dió. Por sorte (?) Alisson apareceu querendo comprar uma garrafa de vinho. Então Dió lhe pediu que levasse de graça a garrafa desde que dali retirasse seu amigo. Daí saíram de moto, foram ao Rio Grande, depois voltaram decididos a retornar ao lar. Tiveram uma forte discussão na qual quase saem no braço, mas depois fizeram as pazes e resolveram ir para Palmeiras, apesar de já ser 23 horas, sabe-se lá por que. Perto do Riachinho, havia uma caminhonete para da havia já algum tempo. Chocaram-se contra ela com tal violência que o veículo estacionado, apesar do seu peso, foi deslocado de onde estava por mais de 1 metro. Pouco depois Enilson, pai de Alisson, vinha por coincidência passando no local e Vilson que estava com ele alertou-o de que se tratava do seu filho. Ele não acreditou de imediato e foi olhar o rosto, reconhecendo-o e recebendo dele o último suspiro. Rafael ainda respirava e foi conduzido ao hospital de Irecê. No momento em que escrevo estas linhas, ele está sendo conduzido para a sepultura, após dois angustiosos dias na UTI.
Diversos pensamentos me vêm à mente ao observar todos os acontecimentos ao redor destas dores. Os dois rapazes eram pessoas muito aflitas, conquanto não o reconhecessem. Alisson teve uma profunda decepção quando contava em torno de 8 anos. Rafael, embora tenha tido uma mãe cuidadosa que o amava e o pai que ali estava no dia a dia, sempre foi muito revoltado. Ambos destacavam-se pela inteligência. Alisson era um mecânico autodidata de mão cheia. Suas motos, ele as construía a partir de peças velhas. Era bem unido a Dê, seu irmão. Criaram uma borracharia e oficina de motos que tem bastante movimento. Mas Dê tem a cabeça mais no lugar e recentemente sofria (e brigava) com o irmão pelo fato de que este vivia uma vida destrutiva. Aconselhava-o, porém sem sucesso. Interessante que, apesar da vida desregrada, os adultos comentam que eles eram muito respeitadores. Quando eu tenho que atender alguém em casa, às vezes tenho que enviar a pessoa para o hospital, o que me faz voltar pra casa a pé ou de moto-taxi, pois o carro que veio me buscar fica com a tarefa de levar o doente. Se Alisson me visse nesta situação, interrompia seu que fazer e me levava em casa de moto, dirigindo com surpreendente cuidado e jamais aceitava pagamento. Tinha por mim uma consideração muito grande. Rafael, depois que se casou com Sinéia, filha de Maninho, ficou mais tranquilo e fez uma horta no fundo do quintal de cujos frutos sempre me regalava alguns. Gostava de me mostrar as suas produções e, mesmo bêbado, me tratava com deferência. Mas os dois, quando saíam para a farra e bebiam, deixavam aflorar aquilo que lhes fazia sombra à doçura e as coisas costumavam terminar em brigas ou acidentes. Alisson sofreu 5 acidentes graves de motocicleta – em um deles derrubou 4 moirões de cerca e ficou mais de 2 horas desacordado. Dentro lá do seu pacto, um não deixava o outro em paz, pois quando Alisson atendia aos apelos de Dê para trabalhar com ele, Rafael o chamava para o mundo tumultuoso e quando Rafael descansava no conforto simples de um lar com esposa e dois filhos pequenos, Alisson o requisitava. Combinaram uma vida atormentada e foram fiéis um ao outro e à sina que elaboraram para si.
Os mais velhos olham-se em interrogantes. Os jovens demonstram sentimentos ambíguos, inclusive de revolta. Todos se esquecem de que aqui nesta região as vidas têm sido apaixonadas. Muitos se deixam levar pelas fortes paixões, por raivas atemporais, medos infundados – ou fundados em elucubrações decididamente bizarras – pactos nem sempre estabelecidos assentados sobre fidelidades intrigantes, ádvenas embora aparentem ser autenticamente próprias. Coisas como um grupo de estudantes perderem o ano porque uma delas não se saía bem em dada matéria e as demais não queriam ir adiante sem a companheira – algo bonito, mas que pode virar coisa perigosa. Aqui, as leis são aquelas que obedecem ao que deseja a vontade; e esta vontade pode ser a da família, pode ser algo parecido com uma teimosia infantil, pode ser fruto da crença em uma condenação declarada (ou sub-reptícia) por uma mãe, um pai, pela sociedade, por um grupo de amigos, sei lá... As leis consuetudinárias locais muito dependem do gosto. É meu amigo ou faz parte do meu grupo político, então se faz algo errado pode ser visto como errado, mas aceita-se, ou passa a ser certo. O mesmo erro feito por um estrangeiro, forasteiro, por alguém de outro grupo ainda que nascido aqui, é abjeto pecado. Talvez este comportamento em que o iníquo pode adquirir ares de virtude derive das agruras dos tempos em que o diamante era farto, quando grupos se digladiavam pela posse das áreas mais ricas e onde a fidelidade ao bando era a maior de todas as virtudes e talvez única possibilidade de sobreviver, quando não de enriquecer. Talvez. Porém trata-se de um anacronismo que seguramente nos faz mal nos dias de hoje.
O povo conta muitas histórias e nelas dor e sofrimento, abandono e horrores se abraçam na construção das lendas. Nelas lições desvelam-se para o ensino dos jovens, nelas também, encontramos as marcas daquilo que já não deveriam fazer parte da vida.
Recebam um abraço melancólico de Aureo Augusto.
Conforme o desejo do próprio Alisson, uma grande quantidade de motocicletas precedeu o cortejo – ele queria também cavalos, mas foram poucos. Vieram motociclistas de longe, pois ele era uma pessoa muito querida, tinha muitos amigos... Alisson e Rafael eram unidos até a medula, embora às vezes se desentendessem, com muito mais frequência estavam juntos nas bandalheiras que aprontavam, desde crianças. Quando Rafael, cansado de tantas confusões que armou por aqui, resolveu ir morar no Pati, Alisson foi com ele. Os dois fizeram um pacto (assim contam os amigos e o irmão) de morrer juntos e assim fizeram. Foi na noite de sexta para sábado, vésperas do carnaval. Rafael havia bebido e como sempre tentava arrumar confusão, desta feita com Dió, um rapaz que é muito tranquilo, que nunca – ao que me conste – teve briga com ninguém. Isso foi no bar/mercearia de Seu Joãozinho, pai de Dió. Por sorte (?) Alisson apareceu querendo comprar uma garrafa de vinho. Então Dió lhe pediu que levasse de graça a garrafa desde que dali retirasse seu amigo. Daí saíram de moto, foram ao Rio Grande, depois voltaram decididos a retornar ao lar. Tiveram uma forte discussão na qual quase saem no braço, mas depois fizeram as pazes e resolveram ir para Palmeiras, apesar de já ser 23 horas, sabe-se lá por que. Perto do Riachinho, havia uma caminhonete para da havia já algum tempo. Chocaram-se contra ela com tal violência que o veículo estacionado, apesar do seu peso, foi deslocado de onde estava por mais de 1 metro. Pouco depois Enilson, pai de Alisson, vinha por coincidência passando no local e Vilson que estava com ele alertou-o de que se tratava do seu filho. Ele não acreditou de imediato e foi olhar o rosto, reconhecendo-o e recebendo dele o último suspiro. Rafael ainda respirava e foi conduzido ao hospital de Irecê. No momento em que escrevo estas linhas, ele está sendo conduzido para a sepultura, após dois angustiosos dias na UTI.
Diversos pensamentos me vêm à mente ao observar todos os acontecimentos ao redor destas dores. Os dois rapazes eram pessoas muito aflitas, conquanto não o reconhecessem. Alisson teve uma profunda decepção quando contava em torno de 8 anos. Rafael, embora tenha tido uma mãe cuidadosa que o amava e o pai que ali estava no dia a dia, sempre foi muito revoltado. Ambos destacavam-se pela inteligência. Alisson era um mecânico autodidata de mão cheia. Suas motos, ele as construía a partir de peças velhas. Era bem unido a Dê, seu irmão. Criaram uma borracharia e oficina de motos que tem bastante movimento. Mas Dê tem a cabeça mais no lugar e recentemente sofria (e brigava) com o irmão pelo fato de que este vivia uma vida destrutiva. Aconselhava-o, porém sem sucesso. Interessante que, apesar da vida desregrada, os adultos comentam que eles eram muito respeitadores. Quando eu tenho que atender alguém em casa, às vezes tenho que enviar a pessoa para o hospital, o que me faz voltar pra casa a pé ou de moto-taxi, pois o carro que veio me buscar fica com a tarefa de levar o doente. Se Alisson me visse nesta situação, interrompia seu que fazer e me levava em casa de moto, dirigindo com surpreendente cuidado e jamais aceitava pagamento. Tinha por mim uma consideração muito grande. Rafael, depois que se casou com Sinéia, filha de Maninho, ficou mais tranquilo e fez uma horta no fundo do quintal de cujos frutos sempre me regalava alguns. Gostava de me mostrar as suas produções e, mesmo bêbado, me tratava com deferência. Mas os dois, quando saíam para a farra e bebiam, deixavam aflorar aquilo que lhes fazia sombra à doçura e as coisas costumavam terminar em brigas ou acidentes. Alisson sofreu 5 acidentes graves de motocicleta – em um deles derrubou 4 moirões de cerca e ficou mais de 2 horas desacordado. Dentro lá do seu pacto, um não deixava o outro em paz, pois quando Alisson atendia aos apelos de Dê para trabalhar com ele, Rafael o chamava para o mundo tumultuoso e quando Rafael descansava no conforto simples de um lar com esposa e dois filhos pequenos, Alisson o requisitava. Combinaram uma vida atormentada e foram fiéis um ao outro e à sina que elaboraram para si.
Os mais velhos olham-se em interrogantes. Os jovens demonstram sentimentos ambíguos, inclusive de revolta. Todos se esquecem de que aqui nesta região as vidas têm sido apaixonadas. Muitos se deixam levar pelas fortes paixões, por raivas atemporais, medos infundados – ou fundados em elucubrações decididamente bizarras – pactos nem sempre estabelecidos assentados sobre fidelidades intrigantes, ádvenas embora aparentem ser autenticamente próprias. Coisas como um grupo de estudantes perderem o ano porque uma delas não se saía bem em dada matéria e as demais não queriam ir adiante sem a companheira – algo bonito, mas que pode virar coisa perigosa. Aqui, as leis são aquelas que obedecem ao que deseja a vontade; e esta vontade pode ser a da família, pode ser algo parecido com uma teimosia infantil, pode ser fruto da crença em uma condenação declarada (ou sub-reptícia) por uma mãe, um pai, pela sociedade, por um grupo de amigos, sei lá... As leis consuetudinárias locais muito dependem do gosto. É meu amigo ou faz parte do meu grupo político, então se faz algo errado pode ser visto como errado, mas aceita-se, ou passa a ser certo. O mesmo erro feito por um estrangeiro, forasteiro, por alguém de outro grupo ainda que nascido aqui, é abjeto pecado. Talvez este comportamento em que o iníquo pode adquirir ares de virtude derive das agruras dos tempos em que o diamante era farto, quando grupos se digladiavam pela posse das áreas mais ricas e onde a fidelidade ao bando era a maior de todas as virtudes e talvez única possibilidade de sobreviver, quando não de enriquecer. Talvez. Porém trata-se de um anacronismo que seguramente nos faz mal nos dias de hoje.
O povo conta muitas histórias e nelas dor e sofrimento, abandono e horrores se abraçam na construção das lendas. Nelas lições desvelam-se para o ensino dos jovens, nelas também, encontramos as marcas daquilo que já não deveriam fazer parte da vida.
Recebam um abraço melancólico de Aureo Augusto.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
FALSO INTERNAMENTO E FELICIDADE
Ontem, sexta-feira, saí do posto com aquela sensação agradável de que tive uma semana produtiva, na qual pude ajudar meus vizinhos a melhorar a qualidade de vida. Estava cansado com aquele cansaço agradável depois do serviço que dá uma sensação de felicidade suave. Sempre que estou assim retorno para casa bem devagar escutando música ou cantarolando conforme volte de carro ou a pé. Véspera de carnaval, o Vale cheio de visitantes, olhava a cara do variegado número de pessoas incluído na denominação turista, ávida por experimentar o lugar.
No caminho encontrei uma pessoa que gosto muito, que foi minha colega na DEP (Dinâmica Energética do Psiquismo) e ela ficou muito surpresa e demonstrou grande felicidade por me ver, como se eu tivesse retornado do túmulo. Então me explicou que havia recebido a notícia que eu estava internado no Hospital Aliança em Salvador com um quadro grave e mortal. A surpresa feliz para ela e para mim nos fez rir bastante. Ao me despedir fui pensando com meus botões o porquê de estar tão feliz com a notícia. Dei-me conta de que tantas vezes deixamos de notar a glória incomparável que é gozar de boa saúde. Fui uma pessoa que na juventude teve muitos achaques que, graças a modificações na alimentação e demais hábitos de vida, atitudes e de pensamento consegui alcançar um grau de bem estar muito bom. Por isso tenho sempre uma sensação de que sou um sobrevivente, de que estou tendo uma espécie de prorrogação, de modo que, grato, procuro divertir-me ao máximo. O problema triste é que nem sempre mantenho a consciência disto e deixo-me levar por aborrecimentos nem sempre dignos de minha atenção. Naquele momento me veio muito clara a gozosa situação de não encontrar-me internado em um hospital e sim partilhando a vida com pessoas que amo, plantas, pequenos animais, paisagem que transborda-se em beleza ao meu olhar. Ah! Que bom estar aqui, agora e neste agora que escrevo, esperando no consultório uma pessoa para dar consulta, escutando o farfalhar da chuva abençoando a terra.
Não sei bem porque algumas pessoas alimentam suas almas com o veneno do divulgar males. Sei que existem pessoas que se especializam em mandar vírus para os computadores dos outros através da internet e que estes provocam danos, às vezes irreversíveis. Tento imaginar como deve ser a mente destes indivíduos e tenho alguma dificuldade. Sei que trabalhar com práticas que incitam à modificação dos hábitos de vida traz como uma das respostas em quem não consegue mudar o desejo de que fique eu doente. Nem todas as pessoas são como a minha amiga citada acima, que estava sinceramente compungida com o meu suposto sofrimento. Alguns sentem um alívio. Algo como: “Ah! Se ele está assim tão doente é porque seus conselhos de saúde não servem para nada, não preciso sacrificar-me seguindo-os”. E sentem um tremendo alívio. Esquecem que alimentação não é tudo. Tenho visto tantas pessoas muito rigorosas em sua alimentação, mais ainda do que eu, adoecerem por raivas, dores, decepções, sofrimentos e aflições. O mundo é vasto e o ser humano jamais poderia, dada a sua complexidade, ser reduzido a uma teoria ou a um conjunto de reações químicas. Pobre de quem crê em uma simplicidade simplória e mais pobre ainda aquele que põe sua força na força do outro, encontrando satisfação, justificativas e dor nos espelhos da alteridade.
Dá-me alegria viver no mundo moderno, onde a cada dia nos damos conta de que somos nós os verdadeiros responsáveis pela nossa felicidade e bem estar. Os demais são desejáveis exemplos, desejados conselhos, apoios insubstituíveis, parceiros em uma existência que jamais poderia ser sem parceria, porém está reservada a si a última palavra. Nós mesmos, sem desculpas externas somos chamados (por nós mesmos) a definir o que queremos da vida.
Recebam um abraço carinhoso (e chuvoso) de Aureo Augusto.
No caminho encontrei uma pessoa que gosto muito, que foi minha colega na DEP (Dinâmica Energética do Psiquismo) e ela ficou muito surpresa e demonstrou grande felicidade por me ver, como se eu tivesse retornado do túmulo. Então me explicou que havia recebido a notícia que eu estava internado no Hospital Aliança em Salvador com um quadro grave e mortal. A surpresa feliz para ela e para mim nos fez rir bastante. Ao me despedir fui pensando com meus botões o porquê de estar tão feliz com a notícia. Dei-me conta de que tantas vezes deixamos de notar a glória incomparável que é gozar de boa saúde. Fui uma pessoa que na juventude teve muitos achaques que, graças a modificações na alimentação e demais hábitos de vida, atitudes e de pensamento consegui alcançar um grau de bem estar muito bom. Por isso tenho sempre uma sensação de que sou um sobrevivente, de que estou tendo uma espécie de prorrogação, de modo que, grato, procuro divertir-me ao máximo. O problema triste é que nem sempre mantenho a consciência disto e deixo-me levar por aborrecimentos nem sempre dignos de minha atenção. Naquele momento me veio muito clara a gozosa situação de não encontrar-me internado em um hospital e sim partilhando a vida com pessoas que amo, plantas, pequenos animais, paisagem que transborda-se em beleza ao meu olhar. Ah! Que bom estar aqui, agora e neste agora que escrevo, esperando no consultório uma pessoa para dar consulta, escutando o farfalhar da chuva abençoando a terra.
Não sei bem porque algumas pessoas alimentam suas almas com o veneno do divulgar males. Sei que existem pessoas que se especializam em mandar vírus para os computadores dos outros através da internet e que estes provocam danos, às vezes irreversíveis. Tento imaginar como deve ser a mente destes indivíduos e tenho alguma dificuldade. Sei que trabalhar com práticas que incitam à modificação dos hábitos de vida traz como uma das respostas em quem não consegue mudar o desejo de que fique eu doente. Nem todas as pessoas são como a minha amiga citada acima, que estava sinceramente compungida com o meu suposto sofrimento. Alguns sentem um alívio. Algo como: “Ah! Se ele está assim tão doente é porque seus conselhos de saúde não servem para nada, não preciso sacrificar-me seguindo-os”. E sentem um tremendo alívio. Esquecem que alimentação não é tudo. Tenho visto tantas pessoas muito rigorosas em sua alimentação, mais ainda do que eu, adoecerem por raivas, dores, decepções, sofrimentos e aflições. O mundo é vasto e o ser humano jamais poderia, dada a sua complexidade, ser reduzido a uma teoria ou a um conjunto de reações químicas. Pobre de quem crê em uma simplicidade simplória e mais pobre ainda aquele que põe sua força na força do outro, encontrando satisfação, justificativas e dor nos espelhos da alteridade.
Dá-me alegria viver no mundo moderno, onde a cada dia nos damos conta de que somos nós os verdadeiros responsáveis pela nossa felicidade e bem estar. Os demais são desejáveis exemplos, desejados conselhos, apoios insubstituíveis, parceiros em uma existência que jamais poderia ser sem parceria, porém está reservada a si a última palavra. Nós mesmos, sem desculpas externas somos chamados (por nós mesmos) a definir o que queremos da vida.
Recebam um abraço carinhoso (e chuvoso) de Aureo Augusto.
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